O diretor alemão Wim Wenders chamou o diretor de arte Péter Pabst e os diretores de fotografia Hélène Louvart e Jorg Widmer para um tributo. Um tributo ao que chamamos de gênio da raça. Aquelas pessoas cujo trabalho contribuiu para o engrandecimento da raça humana. Mostrar ao redor do globo, para aqueles que não a conheciam, e para aqueles que estão com saudade, a face artística de alguém que marcou época, marcou a dança e marcou o espírito humano: a bailarina e coreógrafa Pina Bausch.
Conhecedor de sua obra e próximo da coreógrafa, Wenders esmagou a tecla do gatilho, certo de que nenhuma alma, mesmo as sem sopro, sairiam ilesos da força da arte. Incomodar o público diante da arte, do conceito, da formação, da técnica, da beleza e do encanto. Win Wenders de cineasta virou um snipper. De tiro certo, calmo, senhor do que queria sobre a tela, dominando cada canto e cada pedaço de sua descrição.
Realmente, é difícil enquadrar Pina numa categoria. Wenders filmou as montagens de quatro coreografias de Pina Bausch: Le Sacre du Printemps, Café Müller, Kontackhof e Vollmond, com a presença dos bailarinos que formaram sua companhia, a Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. Intercalando cenas das coreografias originais com a remontagem especial para o filme, trechos com a própria coreógrafa e contribuições dos bailarinos da companhia e demais convidados para o filme, Pina é olho da não-dança, de quem não é bailarino, ressaltando o que a dança tinha de mais importante na visão de Pina Bausch: Quando as palavras não dão mais conta, só nos resta o movimento.
Essa essência de Pina, que norteou o caráter artístico de seu trabalho, é preservado e presente ao longo de todo filme. Ousando em cenários ora ao ar-livre, ora no palco, Wim Wenders decretou um filme com a mesma sintonia que Pina Bausch teria se tivesse que filmar suas próprias coreografias. A força a partir da sutileza, o olho que Pina Bausch possuía do vigor a partir da fragilidade. Dentro de um corpo além do movimento, imenso em sua sensibilidade para a interpretação.
Na primeira parte do filme, entende-se porque Pina Bausch trabalhou com aqueles bailarinos da Tanztheater Wuppertal. Foram muito além da dança em si, carregaram as coreografias com a potência de interpretação. Nada substitui ir além de ser apenas um bailarino, não há valor maior no mundo do que a união do movimento com a interpretação. É sublime, assombroso, ver tão de perto que não se tratou somente de dança, de dançar para não se perder. Pina Bausch não apenas abria aos seus bailarinos a criação do movimento como contribuição coletiva. Ela demandava deles não se esconder atrás das pilastras do medo, era preciso interpretar o que se dizia quando as palavras já não davam mais conta. A interpretação era a marca.
Dotada de um espírito horizontalizante, abrangente e acolhedor, Pina Bausch não construiu reputação: edificou o dever da emoção, o dever do tácito, no fazer e na materialização artísticos. Deu importância ao movimento pelo viés de interpretar e permitir a justaposição de significados por parte do público. E o filme de Wenders, nesse aspecto, foi brilhante. Na sua condição de espectador, mas de contribuinte na restituição e reconstituição de signifcados, o diretor não pôde ser mais feliz em colocar algo tão vigoroso nas telas.
Wim Wenders dá um banho na pirotecnia rasteira hollywoodiana ao mostrar que a exibição 3D também é uma voz narrativa e que não serve apenas para bonecos cibernéticos darem pernadas em aventuras que levam o público do nada ao lugar nenhum. O filme conta apresenta os depoimentos dos bailarinos, com a imagem de cada um que contribuiu nesse tributo, mas com o áudio em off. O espectador apenas vê o rosto do bailarino em destaque, mas sem abrir a boca. Wenders tira os depoimentos ao longo do filme daquela mesmice usual dos documentários, alguns, inclusive, que mais parecem parecem averiguação policial, especialmente quando contam com um editor tremendamente inábil.
Wenders prova que o 3D não substitui a direção de arte (em Pina, assinado por Péter Pabst) e nem tampouco renega a um plano menor a direção de fotografia (de Hélène Louvart e Jorg Widmer). A percepção dos espaços utilizados como cenário, um enquadramento perto do inusitado e a escolha da luz como elemento semântico da expressão e da interpretação tornam Pina passagem obrigatória para quem gosta de dança, ou gosta de cinema, ou acha que é um profundo connoisseur da captura e reprodução em 3D.
A missão foi cumprida. Realmente, ficou difícil para a Academia entender Pina como um documentário apenas. Mais um. Pina é o tributo a uma das maiores coreógrafas que a história da dança já teve. Um filme que fica entre o documentário e uma obra de arte. Uma lição de cinema, uma lição de sensibilidade e um evento que reconstitui e resgata a arte dos simulacros pífios e mal-acabados que andam assolando esse início de século.






